Cartas ao amigo Syd

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Location: Maringá, Paraná

"Hei, vocÊ?! sabe quem eu sou?! Engana-se!!! Apenas pensa que sabe. Sou mais que um nome: talvez menos. Mas não sou o que o seus olhos vêem. Sou um reflexo num espelho, Uma cópia de mim mesmo."

Thursday, August 03, 2006

03 / VIII / 2006.

Caro amigo Syd,

ontem à noite aconteceu algo estranho. Eu tive um sonho. E isso é algo mesmo muito estranho. Pois como você sabe, eu não tenho o hábito de sonhar. Ou pelo menos não costumo me lembrar deles. Não com freqüência. Isso acontece desde os meus seis anos de idade. Depois que minha mãe me ensinou a rezar para afastar os pesadelos com bruxas e monstros que me atormentavam todas as noites. Nunca esqueci essa oração. – “Meu bom Deus, afaste de minha mente os sonhos maus. Traga-me somente sonhos bons. E eu prometo ser uma criança boa.” – Mas esta noite acho que esqueci de rezar. E eu tive um sonho.
Ou quem sabe um pesadelo?! Não sei dizer bem. Pois não tinha bruxas nem monstros neste sonho. Mas, ao invés disso, havia pessoas – talvez algo pior que bruxas e monstros para mim. Pois bruxas e monstros eu sempre consegui espantar com orações e pedidos ao bom Deus. Já pessoas... eu não consigo.
Este sonho me levou para um lugar distante de tão perto. Há muito tempo atrás. Ontem talvez. Com pessoas estranhas de tão conhecidas. No meio de uma multidão. Sozinho. Não. Sozinho não. Havia alguém mais comigo. Talvez uma pessoa... talvez um anjo... talvez um demônio... talvez alguém esquecido... Talvez alguém que eu deveria ter esquecido.... Eu não sei, meu caro amigo. Eu estou meio confuso. Eu sou confuso.
O que sei é que tive um sonho. E ele me levou para este lugar. A noite estrelada. A lua cheia. A brisa suave. Eu estava parado ali. Não sei onde. Diante de mim, Ela. Estava linda. E ao mesmo tempo assustadora. Seus olhos brilhavam como o sol. Mas tinha o olhar obscuro. Seu sorriso era meigo. Porém seus lábios exalavam veneno. Seu corpo moldado, formas perfeitas. Seus seios e seus quadris indicavam perigo e perdição.
Por um instante nos olhamos. Olhos nos olhos. Eu senti o coração disparar. Falta de ar. Minhas pernas bambas. Uma vontade louca de correr na direção dela. De abraçá-la. Sentir seu corpo. Beijar sua boca. Como eu quis dizer o quanto eu a amava, meu amigo. Como eu senti vontade de tomá-la em meus braços, montar num cavalo branco e leva-la para um lugar distante, onde o passado não mais pudesse nos alcançar. Onde não ouvesse palavras rudes para serem ditas nunca mais. Onde não houvesse desculpas. Nem perdão para ser dado. Onde não tivessem erros para serem corrigidos. Ou lembranças para serem julgadas. Como eu queria levá-la dali. Como eu queria.
Mas para fazer isso eu precisava deixar para trás meus medos; minhas mágoas; minhas frustrações; minha angústia. Eu teria que deixar a minha vida. Meus sonhos que nunca realizei. Lutas que não tive coragem de combater. Coisa que sempre quis, mas nunca tive. Eu teria que deixar tudo que eu sempre acreditei ser correto, mas nunca me fez chegar a nenhum lugar. Eu teria que deixar a mim mesmo para trás, meu amigo Syd. Eu teria que deixar a mim mesmo para poder viver uma outra vida. Num outro lugar. Com uma outra pessoa.
Então juntei todas as forças dentro de mim. Joguei fora tudo que me prendia a esse mundo; a essas coisas; a esses medos e frustrações. Eu precisava disso meu amigo. Eu precisava me libertar. Eu precisava ir na direção dela. Tê-la em meus braços. Minha vida. Minha liberdade. E seria nesse momento. Agora.
E movido por um desejo incontrolável de não ser mais o nada que sempre fui. De não viver essa vida medíocre que sempre tive. Movido por uma vontade enorme de não ser mais o velho e miserável “eu”, eu corri na direção dela. Corri como nunca na minha vida. – Era minha hora; minha liberdade; minha vitória, enfim. – Por isso corri como um louco. Cada vez mais perto. Até que me aproximei tanto que em poucos metros eu poderia tocá-la.
Ela me olhou. Sorriu para mim. – Como Ela era linda. – Percebi seus lábios se moverem. Eu ainda corria na sua direção quando ouvi sua voz suave:
_Cadê o seu cavalo?
Então eu parei. Havia algo errado. Olhei ao meu redor. Eu não tinha nenhum cavalo. Eu não tinha coragem. Eu não tinha nada. E quando me voltei para na direção dela novamente. Ela já não estava mais ali. Ela se foi. Assim como as estrelas. A lua. A brisa suave. E tudo que pude fazer foi acordar. E acordei. E tudo que me restara foram as paredes do meu quarto escuro. Minha caverna. Eu estava de volta ao meu mundo. A minha vida. De volta ao que tanto me fazia infeliz. Eu voltei a mim mesmo.
E quem era Ela? Eu não sei, meu amigo. Talvez só um sonho. Talvez uma lembrança. Talvez somente ela saiba quem era Ela. Talvez eu saiba, mas tenha medo de dizer.

Paz! Amor! Empatia!

Ass: Thomas W. Grecco

“Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão,
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão.”

“Somos quem podemos ser” – H. Gessinger

Wednesday, July 26, 2006

26 / VII / 2006

Caro amigo Syd,

Eu iniciei essa carta mesmo sem ter nada a dizer. Somente porque estou me sentindo muito sozinho. E esta solidão está me sufocando. É como se eu estivesse dentro de uma caverna escura, isolado do mundo, vendo a vida passar a cada segundo, como areia numa ampulheta. Como odeio me sentir assim. Mas o que faço para tirar esse vazio do peito? O que tenho que fazer para não deixar que minha vida não passe tão depressa? O que eu preciso fazer para não morrer no fundo desta caverna? Será que alguém tem a resposta? Eu acho que não. Mesmo porque não tem mais ninguém aqui comigo. E isto é a causa da minha solidão.
Eu sei que pode até ser culpa minha esse meu isolamento. Sei que nunca me esforcei para fazer novas amizades. Para me relacionar com as pessoas. Sinceramente acho que, em algum lugar do passado eu até tentei fazer amigos. Nos tempos do colégio. Mas desisti depois de ser atirado numa lata de lixo no pátio da escola durante o recreio. – Ou será que foi depois que me trancaram no vestiário feminino? – Não me lembro bem. Talvez você se lembre, caro Syd. Pois foi quando nos conhecemos.
Sei também que não fui capaz de manter perto de mim as poucas pessoas que se aproximaram. Mas juro, meu amigo, que não sei como eu as afastei de mim. Só sei que elas se foram aos poucos. Cada uma delas numa direção diferente. Cada uma delas com um sonho. Uma esperança. Assim como você se foi. Sem dizer adeus. Até logo. Até mais. Apenas se foram.
E eu fiquei aqui parado, olhando para o céu, rezando para que as nuvens negras se fossem também. Esperando que os meus amigos um dia voltassem. Mas assim como você, ninguém voltou. Nem mandaram notícias. Um telefone. Apenas o silêncio. Apenas a saudade. Apenas a solidão.
Por isso me sinto só. Por não ter ninguém aqui para me ouvir nos dias maus. Para me abraçar nos momentos de solidão. Para me dizer o quanto estou errado em ficar aqui parado. Para me mandar calar a boca quando passo o tempo tudo reclamando da vida. Para discutir literatura, cinema, notícias de Londres, novela mexicana, o medo do futuro, o dia de ontem, amores, dores...
Ah, meu amigo Syd. Tudo ao meu redor é vazio. E já não tenho com quem compartilhar meus medos. Não tenho com que reclamar da vida. Não tenho com quem compartilhar esperanças. Acho que é por isso que não tenho mais nenhum.
Para que esperança? Para que ter sonhos? Para que fazer planos se não há ninguém para quem contar?! Se não há ninguém para torcer junto?! Esperar junto?! Se não há ninguém com quem chorar junto quando tudo dá errado?! Quando os sonhos se vão?! Quando se perde a esperança?! Quando não há mais expectativa?! Ou mesmo quando se realiza algo?! Se conquista algo?! – Sozinho, vencer ou perder; ter ou não ter; viver ou morrer não faz nenhuma diferença”.
Por isso, meu amigo, eu não tenho mais esperança. Já não sonho mais. Já não faço planos. Somente fico aqui trancado, dentro de mim mesmo. Vendo os dias passarem lentos, enquanto a vida escorre rapidamente por entre os dedos da minha mão. Enquanto me escondo de mim mesmo.
Só espero que algum dia ainda alguém se lembre de mim. Não com desprezo. Nem com amargura. Nem com arrependimento por ter me conhecido. Mas com uma gota de saudade. – Quem sabe, uma certa tristeza por não ter me conhecido um pouco mais. Ou, ainda uma certa alegria por ter estado comigo pelo menos uma vez. – Quem sabe, não é mesmo meu amigo?!
No mais, eu me despeço. E espero que possamos nos falar uma outra vez ainda. Ou, pelo menos, que você se lembre de mim. Mas não com tristeza. Nem alegria. Somente um pouco de indiferença. Sem lágrimas. Sem sorrisos. Apenas uma lembrança. Pois isso já faria alguma diferença para quem não fez diferença nenhuma.

Paz! Amor! Empatia!

Ass: Thomas W. Grecco

“Viver assim é um absurdo, como outro qualquer,
Como tentar o suicídio, ou amar uma mulher.
Viver assim é um absurdo, como outro qualquer,
Como lutar pelo poder, lutar como puder.” – “Muros e Grades” (H. Gessinger/A. Licks)

Tuesday, July 18, 2006

18 / VII / 2006

Caro amigo Syd,

as nuvens escuras pairam novamente sobre Looserland. O sol não aparece já faz alguns dias. E tudo o que tenho feito é ficar sozinho no escuro do quarto olhando para o céu, enquanto me pergunto: “Quando essas nuvens negras irão desaparecer?” E a resposta, meu amigo, “nem mesmo o vento tem soprado”. Por isso fico trancado aqui dentro de mim mesmo, com meus velhos discos e meus cigarros, apenas esperando o tempo passar. Esperando a dor passar. Mas eles não passam, caro Syd. Eles não passam.
Já não durmo mais durante a noite. Tenho medo de sonhar. Tenho medo que os sonhos me tragam recordações que procuro sufocar com a minha dor. – Dói menos assim. – Isso porque quando estou acordado a realidade à minha volta impede que eu possa ter esperanças. Mas quando durmo, eu não consigo controlar esses sentimentos.
Sei disso porque tive um sonho há dias atrás. Eu era de novo uma pessoa normal. Tinha uma expressão jovial no meu rosto. E havia pessoas amigas à minha volta. Tinha alguém que eu amava do meu lado. Eu fazia planos para o futuro. Acreditava que tudo podia ser diferente. Carregava mesmo um sorriso nos lábios. E um brilho radiante nos olhos. Acho até que eu estava feliz. Feliz, como um dia acreditei que poderia ser. Ser uma pessoa normal. Fazer coisas normais. E viver uma vida normal. – Eu, normal?! Será?
Mas, de repente, alguma coisa aconteceu. A noite passou. O dia chegou. E tudo se foi. A minha juventude. Meus amigos. Meu amor. Minha esperança. O sorriso dos lábios. O brilho dos olhos. O sonho acabou. E tudo voltou ao normal. – Anormal como eu.
Desde então as nuvens negras pousaram sobre minha cidade e eu nunca mais consegui ter um momento de paz. Até mesmo os demônios que eu acreditava tê-los exorcizado, parecem que voltaram a rondar a minha casa. Tenho medo de que eles entrem outra vez, meu amigo. Tenho medo de que eles invadam novamente meu abrigo. Meu corpo. Meu coração. Tenho medo que eles me dominem como sempre fazem. Como tenho medo, Syd. Como tenho medo.
“Queria que você estivesse aqui”. Aliás, eu preciso de você aqui, meu amigo. Preciso que me ajude a encontrar a saída desta escuridão. Preciso que me ajude a dispersar estas nuvens negras. – “Preciso ter alguém com quem conversar e que não use o que eu digo contra mim”. – Antes que eu perca o controle de tudo. Antes que eu procure sozinho uma saída. Antes que... “Como queria que estivesse aqui”, meu amigo. Como eu queria...
Sei que estou parecendo aquela criança que você conheceu escondida no banheiro da escola, refugiada num reservado para chorar as humilhações sofridas pelas outras crianças. Ou aquele adolescente do colégio que vivia sozinho pelos cantos, simplesmente por não conseguir se relacionar com as pessoas. Tudo porque eu se achava ser diferente das outras pessoas. Achava ser estranho. Anormal. – Coisas que eu realmente era. – Mas estou precisando mesmo de você, meu amigo Syd.
Isso porque eu já não sou mais uma criança chorona. Nem mesmo um adolescente solitário. Agora eu sou um adulto. Um adulto chorão e solitário. E isso me assusta. Pois quando eu era criança as coisas que eu fazia eram coisas de criança. Meus sentimentos eram de criança. E meus brinquedos eram brinquedos de criança. Mas agora que cresci meus sentimentos já não são os mesmos de uma criança. E meu revolver não atira mais espoleta. – Não dá mais para brincar de morrer e de matar após o jantar, e depois escovar os dentes antes de ir para cama. – Por isso “eu queria que você estivesse aqui”, meu amigo.
Agora vou terminando esta carta. A noite está indo embora. E eu preciso descansar um pouco. Ainda tenho um dia inteiro pela frente. – Ou não... – Por isso vou tentar descansar. Mas não posso dormir, pois tenho medo de não acordar. E caso não receba mais notícias minhas, saiba que as nuvens negras desapareceram para sempre. E que nunca mais precisarei escovar os dentes antes de dormir...

Paz! Amor! Empatia!

Ass: Thomas W. Grecco

Ps: “No rádio; na T.V.; na estante da sala;
Na capa da revista; na primeira página do jornal.
Notícias de Londres; uma nave espacial;
Um assalto; um suicídio; um assassinato. Tudo normal.”

Notícias de Londres – (Paulo Lucká)

Wednesday, July 12, 2006

11/ VII / 2006

Caro amigo Syd,

Pelo que li nas suas últimas palavras percebo que você deve estar feliz. Espero mesmo que esteja. Fico contente com isso. Não feliz, pois acho que nunca soube o que seria tal coisa. E acho que nunca saberei. Mas algumas coisas ainda me alegram nessa vida. Coisas tais como uma cerveja no bar. Um cigarro na esquina. Uma garota na cama. Uma poesia de Paulo Lucká. Um amigo que realiza um sonho. Por isso fico contente por sua conquista. – Para ser sincero, sinto até uma ponta de inveja.
Pena, não é meu amigo, que não estou aí com você. Mas acho que cada qual fez sua escolha. – Acho que você nem se lembra mais?! Mas eu sim. – Aquele dia, enfrente a minha casa. Ambos sentados no meio-fio. Conversávamos sobre coisas da vida enquanto observávamos a minha vizinha, que morava do outro lado da rua, varrer a calçada com um shorts curtinho e uma camisa regata que deixava à mostra a forma moldada dos seus enormes seios. Ela era linda na sua forma. E fazia questão de nos ignorar. Nós dois. Dois grandes perdedores, ali sentados à beira da rua. E ela um desejo impossível. Apesar de tão perto. Ali, do outro lado da rua. Estava tão longe para gente como nós. E tudo que podíamos fazer era nos perguntar quando iríamos ter coragem para chegar numa garota linda como aquela. – “Quando?” – E você disse:
_”Hoje.”
E, não sei porque, você se levanta do meio fio e vai na direção daquela garota.
Por um instante pensei que estivesse apenas brincando. – Nem você ou eu tínhamos coragem de falar com uma garota. Passamos o colégio inteiro atrás de muitas meninas. Mas nunca conseguimos nada além de ficar observando elas durante o intervalo. Ou as aulas de educação física. – Nunca imaginei que você fosse capaz de chegar naquela garota. Ou mesmo em qualquer outra. Nós sempre havíamos sido ignorados por elas, a vida toda. – Mas aquele dia você foi lá falar com ela.
Eu fiquei ali sentando observando aquela cena, incrédulo, pasmado. – E você foi até lá. – Aproximou-se dela. Disse algo que chamou a atenção da garota. Ela olhou para você. Primeiro deu um sorriso. – Eu não podia acreditar no que estava vendo. Ela havia dado atenção a você. Uma garota havia dando atenção a você. E principalmente, uma garota linda como a minha vizinha do outro lado da rua. – Eu não podia mesmo acreditar. Aquilo era um sonho. Uma ilusão de ótica. Uma miragem.
Então, não sei o que você disse a ela – você nunca me contou o que –, a garota se aproximou de você. Parou na sua frente. Quase tocando o seu peito com os enormes seios dela. Quase trocando sua boca com os lábios dela
_“Não!” – Gritei dentro de mim desesperado naquele momento. – “Ela vai beijá-lo. Ele nunca mais voltará daquele lado. Meu amigo atravessou uma linha proibida. Rompeu as grades da prisão. Ele agora será livre Ele nunca mais será um perdedor. Nunca mais será o mesmo cara que se levantou a pouco desde meio-fio, onde eu ainda estou. Ele está a ponto de beijar uma garota. Mais do que isso. Está a ponto de romper com uma vida toda de derrotas. Romper com um destino Um destino cruel que escolhe suas vítimas no berço para torturá-los durante toda a vida”. – Juro que desejei ser eu ali do outro lado no seu lugar, meu amigo.
Até que, de repente, o mundo voltou ao normal. Ao invés de um beijo na boca, a garota deu um passo atrás e em seguida acertou seu rosto com uma bofetada. – Juro que cheguei a sentir dor na minha cara mesmo ali do outro lado da rua, como se tivesse sido eu a vítima daquela agressão. – Ela então se retirou para dentro da sua casa, deixando a vassoura ali no chão da calçada junto com você e a pilha de lixo que ela varia.
Mas o mais estranho aconteceu quando você voltou para o meu lado da rua. Simplesmente você se aproximou e me encarou com um olhar enigmático. Com um sorriso no canto da boca. No momento eu não soube distinguir seu gesto. Achei que fosse de constrangimento. E disse para que se sentasse novamente ao meu lado. Queria compartilhar a sua decepção. A sua dor. E você respondeu:
_”Não, meu amigo. Eu nunca mais vou voltar a me sentar deste lado da rua.”
E foi embora.
Achei que havia dito isso por vergonha do acontecido. Por arrependimento do seu ato. E que logo tudo voltaria ao normal. Mas não foi bem assim. Você nunca mais voltou ali mesmo. E hoje entendo o que você quis dizer. Hoje entendo o que você havia feito. Naquele dia você rompeu com uma vida inteira de derrotas. Você deu o primeiro passo na direção de uma outra vida que não a qual você estava predestinado. Hoje eu sei o porque você nunca mais voltou a se sentar ali do meu lado. E sei também o significado do seu olhar enigmático e do sorriso estranho no canto da sua boca.
Era um olhar de satisfação. Era um sorriso de vitória. Você aquele dia não havia atravessado uma rua. Você atravessou uma fronteira. A fronteira que separa gente como nós. Você atravessou a fronteira para WinnerLand. E deixou sua cidade natal – LooserLand – para trás de uma vez por todas.
Pena que eu fiquei ali sentado no meio-fio. Pena que nunca consegui atravessar aquela rua, meu amigo. Nunca tive coragem de encarar aquela garota. – Mesmo porque agora ela não está mais lá. – Nunca consegui dar meu primeiro passo. Talvez, seu eu tivesse feito algo por mim, hoje estivéssemos juntos. Mas não. Tudo que fiz foi ficar sentado no meio-fio.
Agora, que posso fazer é ficar contente por você. E esperar que algum dia aquela garota volte a varrer a calçada do outro lado, e eu tenha a mesma coragem que você teve aquele dia e atravesse a rua... Mas acho que não... o meio-fio onde ainda estou sentado é meu porto seguro. E o meu destino... O meu destino,... você sabe...

Paz! Amor! Empatia!

Ass: Thomas W. Grecco

“Será que algum dia, alguém
Vai poder me explicar
Porque você não sente o mesmo que eu?” – Paulo Lucká

Monday, July 03, 2006

03 / VII / 2006

Caro amigo Syd,

Como vão as coisas com você? Está tudo bem? Torço para que sim. Fiquei meio preocupado, pois não recebi resposta da última carta que lhe enviei. Espero que as coisas estejam bem com você. Espero que os fantasmas de Looserland não estejam atormentando você aí em WinnerLand. Digo isso porque sei mais do que ninguém como eles sempre voltam. Eles sempre voltam... Ela sempre volta... Mas já falei disso numa outra carta. Não quero tornar-me repetitivo.
Quero apenas dizer que as coisas aqui não mudaram muito. Aliás, nunca mudam. Acho que já disse isso também. Acho que sempre acabo dizendo a mesma coisa. Acho que sempre falo de mais. Talvez seja porque eu “não tenha nada a dizer”, ou porque sempre “uso palavras repetidas” tentando usar “palavras que nunca são ditas”. Não sei.
O que sei é que a única coisa que mudou aqui é o meu estado de humor. Não tenho me sentido deprimido ultimamente. “Pra ser honesto, só um pouquinho infeliz”. Mas nada que me faça me sentir como naquele 12 de dezembro de 1995.
Você ainda se Lembra?! As aulas tinham acabado naquele dia. Fim do segundo grau. Nossa turma tinha feito uma festa de despedida na sala. Bolo, refrigerante, amigo-secreto. Todos estavam alegres. – Ou quase todos. – Comemoravam o fim das aulas. Uns se abraçavam. Outros contavam sobre seus planos para o futuro. Férias de verão. Vestibular. Trabalho.
E eu no canto da sala, com um copo de refrigerante na mão, observando tudo aquilo com um aperto no coração e uma pergunta na cabeça?. “O que será do meu futuro sem a escola?” A resposta só uma: “Incerteza”.
Isso porque a escola era meu porto seguro. Mesmo que eu não tivesse amigos ali. Mesmo que eu desprezasse todos os professores e todas as matérias. Mesmo que eu odiasse acordar todas as manhãs para acabar naquela sala fria. Mesmo que eu achasse tudo aquilo a minha volta uma perda de tempo. Mesmo com tudo isso, era a escola o meu porto seguro. Pelo menos eu conhecia quem era os que me desprezavam. Conhecia quem eu odiava. Eu sabia para onde ir. O que teria que fazer para sobreviver ali.
No entanto, quando o colegial acabou tudo era apenas escuridão e incerteza. Eu não iria fazer vestibular. Não tinha nenhum curso que me interessava fazer. E mesmo que tivesse, eu não passaria em nada. – Nem sabia como eu estava saindo do colegial. Eu era um aluno medíocre. Acho que me puseram para fora. – Eu não tinha nenhum emprego em vista. Eu não sabia fazer nada além de escrever poesias a uma garota que nem tinha noção da minha existência. – Minha paixão platônica. – E passava meus dias tirando os mesmos três acordes do meu velho violão.
Além do mais, meu pai já havia me intimado no dia anterior, declarando minha sentença: “Ou faz vestibular e vai estudar. Ou vai trabalhar. Porque eu não vou passar a vida inteira sustentando vagabundo”. – O que escolhi? – Você bem sabe que eu tinha uma terceira opção em mente, não é mesmo, meu amigo.
Então, sai no meio daquela festa sem me despedir de ninguém. – Tenho certeza de que ninguém se importou. – Cheguei em minha casa. Entrei no meu quarto. Coloquei no meu velho toca-discos o “Nevermind” que eu havia comprado de segunda mão numa loja de discos no centro. E enquanto ouvia cada faixa eu tentava encontrar uma saída.
Foi quando começou a tocar “Smell Like Teen A Spirit” e eu ouvi Kurt Cobam gritar: “Load up your guns/ Bring your friends/ It's fun to loose/ and to pretend/ She's overboard self assured/ Oh no I know a dirty word “* que percebi que havia uma única saída.pra mim. Fui até minha mochila. Peguei meu estojo. Uma caneta. E uma folha de papel. Escrevi alguma coisa nela das quais não me lembro direito. Em seguida voltei ao estojo. Peguei meu estilete. E antes que Kurt, ou eu pudesse gritar: “I'm worse at what I do best/ And for this gift I feel blessed…”** eu havia tentado a minha fuga.
Depois disso, tudo que me lembro é do barulho das sirenes. Dos rostos disformes entre um delírio e outro. Até que acordei na cama do hospital com meus pulsos enrolados em ataduras.
Grande dia aquele, não é meu amigo. Dizem que eu saí até no jornal. Com foto e tudo. Mas nunca consegui um exemplar para ler o que escreveram sobre mim. Espero que tenha ditoo algo como: “Garoto busca o seu futuro na lâmina de um estilete. Mas é impedido por seus algozes que acreditam que seu sofrimento ainda não merecia ter fim”. – Acho que escreveram mesmo isso não é, caro amigo Syd. Eu acho que sim. Espero que me dê noticias em breve, pois estou preocupado. No mais...

Paz! Amor! Empatia!

Ass: Thomas W. Grecco

*”Arme-se e/ Traga seus amigos/ É divertido perder e fingir/ Ela está perdida/ Mas segura/ Oh não, eu sei um palavrão...”
**”Sou pior no que faço melhor/ E por este presente e eu me sinto abençoado...”

Tuesday, June 27, 2006

Maringá, 26 / VI / 2006

Caro amigo Syd,

Pelo que vejo você recebeu minha carta. E fico muito feliz por ter me respondido tão prontamente. Peço desculpas por ter me estendido tanto nas minhas palavras da primeira vez. Creio que tomei muito o seu tempo com aquelas intermináveis linhas de lamúrias e lamentações. – Eu sou mesmo um reclamão incorrigível. – Mas eu precisava jogar um pouco fora toda aquela sujeira presa em meu peito. Me fez bem.
Mas, fiquei mais feliz em receber uma carta sua depois de tanto tempo. Como você sabe não tenho muitos amigos. Os que eu tinha – e que não eram muitos –, eu os afastei de mim com meus lamentos e meu constante mau-humor. – Ninguém gosta de alguém que vive deprimido e choramingando do lado, não é mesmo, meu amigo?! – Mas a vida sempre parecia ser mais difícil para mim do que para o resto da humanidade. E eu não podia ficar calado enquanto tudo parecia dar errado. – Mas pelo jeito não adiantou muito reclamar. Não mesmo. Como diria aquele rebelde homossexual: “E meus amigos parecem ter medo de quem fala o que sente. De quem pensa diferente. Nos querem todos iguais. Assim é bem mais fácil nos controlar”.
Mas hoje, caro amigo Syd, estou tentando recomeçar de novo. Começar do zero. Tentando sair do fundo do poço. Dar o primeiro passo, seja em que direção for. Eu estou recomeçando, meu amigo. Ou pelo menos estou tentando. – Mesmo não acreditando que o universo possa conspirar ao meu favor eu vou continuar tentando. Eu espero.
Aliás, eu sempre achei uma coisa estúpida esse tipo de frase que as pessoas viviam escrevendo nas capas dos cadernos no colégio. Frase que diziam aos quatro cantos como se fosse a coisa mais original do mundo. Mas que não passavam de frases feitas; de mensagens de auto-ajuda que nunca me ajudaram em nada. – Ou talvez, o universo é que não fosse muito com a minha cara, e por isso vivia me sacaneando. – Não sei, amigo Syd. Sinceramente não sei.
Tudo que sei é que cheguei a um ponto em que não há mais para onde ir. Nem para o fundo. Nem para trás. Só me resta tentar ir para frente. Ou para cima. Espero ter forças para sair do lugar. Por Deus, como espero.
Mas, para não me prolongar como da última vez, e para não tomar mais o seu tempo, eu vou me despedindo. Espero que possamos manter contato. Pois preciso, mais do que nunca, de alguém comigo nesse meu novo início. – Espero que não seja só mais um de tantos outros que me trouxeram até aqui. – Mesmo que você esteja comigo somente em palavras. No mais...

Paz! Amor! Empatia!

Ass: Thomas W. Grecco

“Palavras serão somente palavras
Quando não lidas com atenção;
Entendidas com a alma;
Sentidas com o coração.
Pos isso eu digo: Eu te amo!” *

*De um garoto apaixonado para sua amada, há muito tempo atrás, quando “as nuvens ainda eram de algodão”.

Tuesday, June 20, 2006

..., 20 de junho de 2006

Caro, amigo Syd,

Como vão as coisas com vocês? Como é bater as asas enquanto ainda há alguma esperança? Como é ser livre das grades desta pequena cidade? Será que algum dia eu terei a mesma coragem que você teve? Coragem de dizer, “goodbye, blue sky”?! Coragem de dizer, “no more tears”?! Coragem para dizer, “foda-se”?! Será?
Mas infelizmente, hoje não tenho essa coragem. Na verdade, acho que eu nunca soube o significado desta palavra. “Coragem”!!! Talvez, só mais uma palavra. Entre tantas outras as quais nunca entendi o que queriam dizer. Palavras como, “paz”, “amor”, “felicidade”, “amizade”, “respeito”, “vitória”... – Grandes palavras vazias para o meu vocabulário. – Mas acho que você sabe muito bem disso, né!!! E foi justamente por isso que eu não segui os seus passos. Por ser um grande covarde.
Mas achei que ignorando os meus medos e fingindo ser o que nunca consegui ser, talvez eu pudesse mudar as coisas na minha vida. Pensei que seria mais fácil suportar as noites se eu deixasse os dias para trás. Deixasse para trás a minha vida. O meu coração. Os meus sentimentos. Pensei que os meus demônios não me incomodariam mais se eu os ignorasse, fingisse que eles não estavam comigo.
Mas me enganei, meu amigo! Por mais que eu os ignorasse eles sempre continuavam ali, à espreita, só esperando que eu me distraísse um instante para que pudessem voltar a me atormentar. E voltaram... ainda mais terríveis, ainda mais assustadores... eles voltaram. Os meus demônios voltaram. Ou pelo menos um deles voltou. Vestido de anjo. No corpo de uma garota. Linda como da primeira vez em que a vi. Ela voltou, meu caro amigo Syd. Ela Voltou...
Por isso resolvi escrever. Por isso preciso falar com você. Estou com medo. Estou assustado. Às vezes me escondo de baixo de mim mesmo, tentando enganar os meus medos. Tentando ludibriar meus demônios, para poder ter uma noite de paz. Mas eles sempre acabam me achando. Eles sempre me acham. Meus Medos. Meus demônios. Ela Sempre me acha.
Eu queria que você estivesse aqui, meu amigo! Talvez eu não me sentisse tão apavorada assim. Mas tudo bem! Só de saber que você pode estar lendo esta carta agora já me ajuda. Já faz isso tudo fazer algum sentido. Se é que há algum sentido nisso tudo.
Acho que só o bom e velho Mick poderia me entender neste momento... “Sem dinheiro em nossos bolsos e sem amor em nossas almas...” Oh, minha Angie! “Como eu queria que você estivesse aqui.” Oh, Angie! Como eu queria ter uma noite de sono sem lembrar do dia que passou; sem recordar como tudo estava tão bem no dia de ontem. Mesmo porque, hoje tudo está tão ruim. Oh, Angie!!!
Se me perguntar, amigo Syd, se já fui feliz nesta vida, eu poderia dizer que não. Eu já tive alguns momentos de paz, de alegrias com uma pessoa. Momentos nos quais eu acreditei que era feliz. Ou que pelo menos eu poderia ser algum dia. Mas tudo não passou de uma ilusão.
Porque? “Sempre enfrente foi o conselho que ela me deu, sem me avisar que iria ficar para trás.” Grande Humbertão. – Acho que não preciso dizer mais nada.
No mais, acho que tudo não passou de uma grande tragédia. Ou talvez comédia. E eu é que não entendi a piada quando ela foi feita. Sim, tudo não passou de uma grande brincadeira. Uma grande comédia, a minha vida. Mas como diria Chaplin: “Numa comédia todo mundo se diverte. Menos o protagonista.”
Por isso, meu velho amigo, evoco novamente o grande filósofo caudilho para dizer, “Se eu soubesse antes o que sei agora, eu fugiria antes do final”. E se me perguntar, amigo Syd, se algum dia eu serei feliz, a resposta é não. Como disse um maluco, uma vez, talvez em seu único momento de lucidez: “ninguém é feliz nessa vida tendo amado uma vez”. Acho que não preciso dizer mais novamente, não concorda?!
Hoje, eu estou aqui, sentado sobre uma pedra que não rola, criando limbo, ouvindo um velho rock´n´roll que o vento sopra por aí sem motivo. Estou aqui, parado nesta encruzilhada esperando que Deus – “se é que ele existe” –, me diga qual direção devo seguir. Mas a única resposta que recebo agora é... “Silêncio”! Como sempre, “silêncio”, é tudo o que todos têm a me dizer.
Por isso agora eu quero gritar. Mesmo que seja um grito de dor, eu quero gritar. Mesmo que seja de desespero, eu quero gritar. Mesmo que seja de ódio, eu quero grita. Mesmo que seja de indiferença, eu quero gritar. Deixem me gritar. Eu preciso gritar. Eu quero... Eu preciso...
No entanto, meu amigo, eu não consigo. Eu não consigo dizer mais nada. Por isso acho que vou me recolher novamente ao meu quarto, enquanto ainda tenho forças para isso. Vou me trancar em meu apartamento aqui em Looserland, e esperar que os meus dias não sejam tão curtos e as noites tão longas. Talvez eu consiga descansar um pouco. Ou talvez não. Eu não sei.
Estou precisando de um momento de paz, Syd. Talvez esse seja o meu momento de dizer adeus e seguir um caminho, seja ele qual for. Leve ele aonde levar. Eu apenas preciso... preciso deixar a minha vida para trás. Ela está me atrapalhando... impedindo que eu chegue a algum lugar. Talvez uma chance, meu amigo. Uma chance de fugir de mim mesmo. De me esconder destes demônios. Uma chance de dizer adeus... ou até logo... até mais. Uma chance de esquecer de tudo. De todos. Esquecer que um dia senti alguma coisa por alguém.Que senti alguma coisa por Ela. Sei lá! Talvez eu só precise dizer alguma coisa. Dizer adeus. Dizer “goodbye, blue sky”! E partir enquanto é tempo. Se é que ainda há algum.
Pena que eu ainda tenha uma longa estrada pela frente. A noite vem se aproximando, e eu preciso acender uma luz antes que eu fique completamente no escuro. Mas lembre-se que eu sempre serei seu amigo. Quem sabe nos veremos um dia desses, num lugar mais tranqüilo. Um lugar onde as coisas não sejam tão injustas com gente como nós. Um lugar onde não haja mais dor; não haja mais medo; não haja mais solidão. Um lugar tão distante onde meus demônios não possam mais me alcançar; não possam mais me atormentar. Onde Ela não possa mais me avistar. Um dia, meu amigo... um dia...
Agora deixo apenas um adeus. Espero poder voltar a vê-lo um dia desses. Espero ter uma outra história para poder te contar. Espero terminar a minha estrada, seja ela qual for. Espero nunca mais sentir nada por ninguém. Nunca mais deixar ninguém me magoar. Serei apenas uma pedra. Talvez uma pedra no meio do caminho. Uma Pedra rolante que não crie limbo. “Apenas uma pedra na sua dor”, como li numa poesia, um dia um dia qualquer.
É isso, meu amigo. Adeus, enquanto a luz não se apaga. Mas antes de ir só queria deixar uma pergunta pra você: O que eu fiz comigo mesmo? Pergunta esta que me faço toda manhã diante do espelho do banheiro, logo quando acordo. E que torno a repetir diante do mesmo espelho quando estou pronto para me deitar: O que eu fiz comigo mesmo, meu amigo Syd? – Será que você pode me dizer?
Como gostaria que pudesse, pois eu não consigo encontrar uma resposta sozinho. Apenas um silêncio se segue a esta pergunta. Como se eu não existisse. – E será que existo? – Mas tudo bem! Quem sabe um dia “o vento sopre a resposta”, como na música do Bob, e “me leva para longe, onde eu poderei montar em Cavalos Selvagens”. Quem sabe?! No mais...

Paz! Amor! Empatia!

Ass: Thomas W. Grecco.

Ps: Bem, quando você estiver sentada
No acento traseiro do seu cadilac cor de rosa
Fazendo apostas no derby de Kentacky
Eu estarei no meu sótam
Com minha colher e minha agulha,
Esperando uma outra garota que leve minha dor embora.

Dead flowers (Jeagger/Richards)

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