03 / VIII / 2006.
Caro amigo Syd,
ontem à noite aconteceu algo estranho. Eu tive um sonho. E isso é algo mesmo muito estranho. Pois como você sabe, eu não tenho o hábito de sonhar. Ou pelo menos não costumo me lembrar deles. Não com freqüência. Isso acontece desde os meus seis anos de idade. Depois que minha mãe me ensinou a rezar para afastar os pesadelos com bruxas e monstros que me atormentavam todas as noites. Nunca esqueci essa oração. – “Meu bom Deus, afaste de minha mente os sonhos maus. Traga-me somente sonhos bons. E eu prometo ser uma criança boa.” – Mas esta noite acho que esqueci de rezar. E eu tive um sonho.
Ou quem sabe um pesadelo?! Não sei dizer bem. Pois não tinha bruxas nem monstros neste sonho. Mas, ao invés disso, havia pessoas – talvez algo pior que bruxas e monstros para mim. Pois bruxas e monstros eu sempre consegui espantar com orações e pedidos ao bom Deus. Já pessoas... eu não consigo.
Este sonho me levou para um lugar distante de tão perto. Há muito tempo atrás. Ontem talvez. Com pessoas estranhas de tão conhecidas. No meio de uma multidão. Sozinho. Não. Sozinho não. Havia alguém mais comigo. Talvez uma pessoa... talvez um anjo... talvez um demônio... talvez alguém esquecido... Talvez alguém que eu deveria ter esquecido.... Eu não sei, meu caro amigo. Eu estou meio confuso. Eu sou confuso.
O que sei é que tive um sonho. E ele me levou para este lugar. A noite estrelada. A lua cheia. A brisa suave. Eu estava parado ali. Não sei onde. Diante de mim, Ela. Estava linda. E ao mesmo tempo assustadora. Seus olhos brilhavam como o sol. Mas tinha o olhar obscuro. Seu sorriso era meigo. Porém seus lábios exalavam veneno. Seu corpo moldado, formas perfeitas. Seus seios e seus quadris indicavam perigo e perdição.
Por um instante nos olhamos. Olhos nos olhos. Eu senti o coração disparar. Falta de ar. Minhas pernas bambas. Uma vontade louca de correr na direção dela. De abraçá-la. Sentir seu corpo. Beijar sua boca. Como eu quis dizer o quanto eu a amava, meu amigo. Como eu senti vontade de tomá-la em meus braços, montar num cavalo branco e leva-la para um lugar distante, onde o passado não mais pudesse nos alcançar. Onde não ouvesse palavras rudes para serem ditas nunca mais. Onde não houvesse desculpas. Nem perdão para ser dado. Onde não tivessem erros para serem corrigidos. Ou lembranças para serem julgadas. Como eu queria levá-la dali. Como eu queria.
Mas para fazer isso eu precisava deixar para trás meus medos; minhas mágoas; minhas frustrações; minha angústia. Eu teria que deixar a minha vida. Meus sonhos que nunca realizei. Lutas que não tive coragem de combater. Coisa que sempre quis, mas nunca tive. Eu teria que deixar tudo que eu sempre acreditei ser correto, mas nunca me fez chegar a nenhum lugar. Eu teria que deixar a mim mesmo para trás, meu amigo Syd. Eu teria que deixar a mim mesmo para poder viver uma outra vida. Num outro lugar. Com uma outra pessoa.
Então juntei todas as forças dentro de mim. Joguei fora tudo que me prendia a esse mundo; a essas coisas; a esses medos e frustrações. Eu precisava disso meu amigo. Eu precisava me libertar. Eu precisava ir na direção dela. Tê-la em meus braços. Minha vida. Minha liberdade. E seria nesse momento. Agora.
E movido por um desejo incontrolável de não ser mais o nada que sempre fui. De não viver essa vida medíocre que sempre tive. Movido por uma vontade enorme de não ser mais o velho e miserável “eu”, eu corri na direção dela. Corri como nunca na minha vida. – Era minha hora; minha liberdade; minha vitória, enfim. – Por isso corri como um louco. Cada vez mais perto. Até que me aproximei tanto que em poucos metros eu poderia tocá-la.
Ela me olhou. Sorriu para mim. – Como Ela era linda. – Percebi seus lábios se moverem. Eu ainda corria na sua direção quando ouvi sua voz suave:
_Cadê o seu cavalo?
Então eu parei. Havia algo errado. Olhei ao meu redor. Eu não tinha nenhum cavalo. Eu não tinha coragem. Eu não tinha nada. E quando me voltei para na direção dela novamente. Ela já não estava mais ali. Ela se foi. Assim como as estrelas. A lua. A brisa suave. E tudo que pude fazer foi acordar. E acordei. E tudo que me restara foram as paredes do meu quarto escuro. Minha caverna. Eu estava de volta ao meu mundo. A minha vida. De volta ao que tanto me fazia infeliz. Eu voltei a mim mesmo.
E quem era Ela? Eu não sei, meu amigo. Talvez só um sonho. Talvez uma lembrança. Talvez somente ela saiba quem era Ela. Talvez eu saiba, mas tenha medo de dizer.
Paz! Amor! Empatia!
Ass: Thomas W. Grecco
“Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão,
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão.”
“Somos quem podemos ser” – H. Gessinger
Caro amigo Syd,
ontem à noite aconteceu algo estranho. Eu tive um sonho. E isso é algo mesmo muito estranho. Pois como você sabe, eu não tenho o hábito de sonhar. Ou pelo menos não costumo me lembrar deles. Não com freqüência. Isso acontece desde os meus seis anos de idade. Depois que minha mãe me ensinou a rezar para afastar os pesadelos com bruxas e monstros que me atormentavam todas as noites. Nunca esqueci essa oração. – “Meu bom Deus, afaste de minha mente os sonhos maus. Traga-me somente sonhos bons. E eu prometo ser uma criança boa.” – Mas esta noite acho que esqueci de rezar. E eu tive um sonho.
Ou quem sabe um pesadelo?! Não sei dizer bem. Pois não tinha bruxas nem monstros neste sonho. Mas, ao invés disso, havia pessoas – talvez algo pior que bruxas e monstros para mim. Pois bruxas e monstros eu sempre consegui espantar com orações e pedidos ao bom Deus. Já pessoas... eu não consigo.
Este sonho me levou para um lugar distante de tão perto. Há muito tempo atrás. Ontem talvez. Com pessoas estranhas de tão conhecidas. No meio de uma multidão. Sozinho. Não. Sozinho não. Havia alguém mais comigo. Talvez uma pessoa... talvez um anjo... talvez um demônio... talvez alguém esquecido... Talvez alguém que eu deveria ter esquecido.... Eu não sei, meu caro amigo. Eu estou meio confuso. Eu sou confuso.
O que sei é que tive um sonho. E ele me levou para este lugar. A noite estrelada. A lua cheia. A brisa suave. Eu estava parado ali. Não sei onde. Diante de mim, Ela. Estava linda. E ao mesmo tempo assustadora. Seus olhos brilhavam como o sol. Mas tinha o olhar obscuro. Seu sorriso era meigo. Porém seus lábios exalavam veneno. Seu corpo moldado, formas perfeitas. Seus seios e seus quadris indicavam perigo e perdição.
Por um instante nos olhamos. Olhos nos olhos. Eu senti o coração disparar. Falta de ar. Minhas pernas bambas. Uma vontade louca de correr na direção dela. De abraçá-la. Sentir seu corpo. Beijar sua boca. Como eu quis dizer o quanto eu a amava, meu amigo. Como eu senti vontade de tomá-la em meus braços, montar num cavalo branco e leva-la para um lugar distante, onde o passado não mais pudesse nos alcançar. Onde não ouvesse palavras rudes para serem ditas nunca mais. Onde não houvesse desculpas. Nem perdão para ser dado. Onde não tivessem erros para serem corrigidos. Ou lembranças para serem julgadas. Como eu queria levá-la dali. Como eu queria.
Mas para fazer isso eu precisava deixar para trás meus medos; minhas mágoas; minhas frustrações; minha angústia. Eu teria que deixar a minha vida. Meus sonhos que nunca realizei. Lutas que não tive coragem de combater. Coisa que sempre quis, mas nunca tive. Eu teria que deixar tudo que eu sempre acreditei ser correto, mas nunca me fez chegar a nenhum lugar. Eu teria que deixar a mim mesmo para trás, meu amigo Syd. Eu teria que deixar a mim mesmo para poder viver uma outra vida. Num outro lugar. Com uma outra pessoa.
Então juntei todas as forças dentro de mim. Joguei fora tudo que me prendia a esse mundo; a essas coisas; a esses medos e frustrações. Eu precisava disso meu amigo. Eu precisava me libertar. Eu precisava ir na direção dela. Tê-la em meus braços. Minha vida. Minha liberdade. E seria nesse momento. Agora.
E movido por um desejo incontrolável de não ser mais o nada que sempre fui. De não viver essa vida medíocre que sempre tive. Movido por uma vontade enorme de não ser mais o velho e miserável “eu”, eu corri na direção dela. Corri como nunca na minha vida. – Era minha hora; minha liberdade; minha vitória, enfim. – Por isso corri como um louco. Cada vez mais perto. Até que me aproximei tanto que em poucos metros eu poderia tocá-la.
Ela me olhou. Sorriu para mim. – Como Ela era linda. – Percebi seus lábios se moverem. Eu ainda corria na sua direção quando ouvi sua voz suave:
_Cadê o seu cavalo?
Então eu parei. Havia algo errado. Olhei ao meu redor. Eu não tinha nenhum cavalo. Eu não tinha coragem. Eu não tinha nada. E quando me voltei para na direção dela novamente. Ela já não estava mais ali. Ela se foi. Assim como as estrelas. A lua. A brisa suave. E tudo que pude fazer foi acordar. E acordei. E tudo que me restara foram as paredes do meu quarto escuro. Minha caverna. Eu estava de volta ao meu mundo. A minha vida. De volta ao que tanto me fazia infeliz. Eu voltei a mim mesmo.
E quem era Ela? Eu não sei, meu amigo. Talvez só um sonho. Talvez uma lembrança. Talvez somente ela saiba quem era Ela. Talvez eu saiba, mas tenha medo de dizer.
Paz! Amor! Empatia!
Ass: Thomas W. Grecco
“Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão,
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão.”
“Somos quem podemos ser” – H. Gessinger
